26/11/2007 (SEG)
20h
Produção do Ballet de Londrina, coreografada por Leonardo Ramos, soma um elenco coeso à técnica afiada e, de repente, percebe-se que se tem um Romeu e Julieta pela frente.
Ouve-se a partitura de Prokofiev (1936), para confirmar o ambiente romeu-e-julieta, mas não será possível identificar, de imediato, o que diferencia essa produção das demais da mesma companhia. A inquietação se instala assim que a primeira cena começa, mas a obra precisará caminhar um pouco mais, e a curiosidade também, para que se descubra que, dessa vez, é o movimento que ocupa o foco central, e não o enredo de Shakespeare. Ele apenas se insinua, aqui e ali, em uma relação muito autoral com a música e com a conhecida história do casal.
Em cerca de uma hora de dança de qualidade, tem-se uma bem realizada exploração de eixos de equilíbrio e de possibilidades de locomoção, que colocam o elenco, quase o tempo todo, no chão, andando de joelhos, nos cotovelos, usando costas e quadris.
O Ballet de Londrina nasceu em dezembro de 1993, fruto de um convênio entre a Prefeitura e a Funcart - Fundação Cultural Artística de Londrina. Com grande vitalidade, vem construindo uma trajetória pautada em torno das criações de Leonardo Ramos. Se agora, com Decalque, a companhia parece imersa em um ambiente de Mats Ek, a referência é bem-vinda, pois agregou mais complexidade aos modos de compor dança de seu coreógrafo-residente. Afinal, Mats Ek faz parte, ao lado de Jiry Kylian e William Forsythe, do seleto grupo de gênios que mudou a cara do balé no século 20.
Todavia, Decalque não é uma releitura stricto sensu do clássico Romeu e Julieta, como aquelas que consagraram Mats Ek, e nisso reside mais um de seus méritos. O nome da obra funciona como um bom indicador de que seu interesse está no decalcar (no sentido de transferir). O modo original como se dá a transferência é que importa aqui, pois é do movimento que surgem as ignições que nos fazem lembrar da história. E há ainda o transferir da movimentação de um corpo para o outro. Romeu e Julieta se decalcam em vários corpos, multiplicando-se em cena, e vão criando acontecimentos que funcionam como ignições que nos fazem lembrar do Romeu e Julieta que conhecemos.
Entrada franca.