05/04/2014 (SAB)
20h00
Projeto UM OUTRO OLHAR: “ONLY LOVERS LEFT ALIVE”.
Classificação 18 anos.
Entrada Franca.
“ONLY LOVERS LEFT ALIVE”: Reino Unido/Alemanha/2013 – 122min. Direção: Jim Jarmusch. Elenco: Tlda Swinton, Tom Hiddleston, Mia Wasikowska e John Hurt.
Um dos nomes mais relevantes do chamado “cinema independente” americano, Jim Jarmusch (61) tem uma das mais obras mais notáveis, com filmes cultuados por uma legião de fãs e referências que vão do mítico Nicholas Ray (de “Johnny Guitar” e “Juventude Transviada”) até o alemão Wim Wenders (de “No Decorrer do Tempo” e “Paris, Texas”), passando por Yasujiro Ozu (o mestre japonês de “Era Uma Vez em Tóquio”), Robert Bresson (de “Pickpocket” e “Mouchette”) e Samuel Fuller (de “Paixões Que Alucinam”).
Retratando personagens sempre à margem, desempregados, forasteiros, seu cinema é feito com o mínimo de recursos e o máximo de inventividade que isso estimula – quase sempre optando por planos fixos contemplativos e abolindo a psicologia em favor do minimalismo dos eventos. Dentre seus belos trabalhos estão os já “clássicos” “Estranhos no Paraíso” (84), “Down By Law” (86) e “Dead Man” (95). Dentre seus inéditos comercialmente no Brasil estão o ótimo “Os Limites do Controle” (2010) e o novíssimo “Only Lovers Left Alive” (2013). Aqui, Jarmusch retoma um de seus temas (ou subtexto) preferidos: o legado da cultura. Faz isso, no entanto, subvertendo uma espécie de tradição (ou modismo), que é o cinema de vampiros. Sim, “Only Lovers Left Alive” é um filme sobre vampiros e como já diz o título, eles são amantes. A indescritível Tilda Swinton é Eva, uma vampira de 3 mil anos e que vive em Tânger.
Ele é Adam (Tom Hiddleston, de “The Deep Blue Sea”), um músico underground que mora em Detroit – símbolo da decadência contemporânea da América. Afastados fisicamente, mas unidos por um amor incondicional, cada um leva a vida do jeito que dá, num mundo que se apresenta cada vez mais desestabilizado e sujo. Eles não mordem mais ninguém para poderem se alimentar. Outros métodos são empregados para isso.
Adam, melancólico e atormentado por uma constante náusea, chama os humanos de “zumbis” e lhes imputa a culpa pelo estado de coisas onde o banal torna-se célebre. Eva ama os livros e tem como amigo o grande Christopher Marlowe (papel do ótimo John Hurt, de “O Homem Elefante”) – dramaturgo contemporâneo de Shakespeare, e esse fato é responsável por uma das mais sacadas cenas do filme.
Bem, talvez não seja melhor entregar toda a história (que na verdade nem é uma história), porque a grande beleza do filme reside não apenas no seu estilo deslumbrante e elegante, mas na grande e imperiosa reflexão (ou será mesmo uma crítica violenta?) sobre os dissabores de se estar num mundo onde a grande arte perdeu o respeito e a cultura emerge de lixo reciclado.
Eva e Adam são os símbolos (num anti-gênero) do fim de uma era histórica e terão, como contraponto, a irmã de Eva (Mia Wasikowska, cada vez melhor), que representa uma juventude materialista e sem apego a nada que não seja o consumo imediato.
Misterioso, delicado, sombrio e charmoso, “Only Lovers Left Alive” é um filme que ajuda a desfazer os equívocos que se cometem a torto e a distorcido por aí sobre o significado da palavra cultura. Esses equívocos, no mais, são uma demonstração da total incompetência atual de se comprometer efetivamente e seriamente com o fazer artístico.
O filme, como bem disse um crítico (Jordan Hoffman), é “um exemplo de como usar o estilo para melhorar a substância, não massacrá-la”. Algo que poucos têm conseguido. Inédito no Brasil.
Paulo Campagnolo é Coordenador do Projeto UM OUTRO OLHAR. Patrocínio: Sociedade Médica e Cocamar. Apoio: Secretaria de Cultura, Jornal O Diário, Maringá.Com e Art Vídeo.