19/07/2014 (SAB)
20h00
Projeto UM OUTRO OLHAR: “DANAÇÃO”.
Classificação 18 anos.
Entrada Franca.
“DANAÇÃO” - Hungria/1988 – 116min. Direção: Béla Tarr. Elenco: Miklós Székely B, Vali Kerekes e György Cserhalmi.
O húngaro Béla Tarr (que completará 59 anos no dia 21/07) é considerado um dos maiores cineastas contemporâneos. Isto é fato e talvez bastasse para despertar o interesse pelos seus filmes. Dono de uma filmografia pequena, mas de consistência alarmante, ele tem no currículo algumas obras-primas incontestáveis: “Satantango” (de 1994, um “épico” magistral com 7 horas e meia de duração), “As Harmonias de Werckmeister” (de 2000) e “O Cavalo de Turim” (de 2011, que ganhou o Prêmio da Crítica e o Prêmio do Júri, em Berlim) – todos já exibidos pelo Projeto. Em 88, no entanto, ele realizou “Danação”, o filme que o “revelou” ao mundo e que o Projeto exibe agora. Com seus longos, lentos e belos planos, Tárr narra uma história de amor (e traição), num lugar miserável da Hungria, onde o vazio, a solidão e o tédio dão as cartas. O personagem principal é Karrer, um homem desencantado com o mundo (e à beira do mais completo cinismo) que é apaixonado pela cantora de um bar local. Apesar de, por vezes, ela o aceitar como amante, acaba humilhando-o como homem – coisa que ele aceita de bom grado. Com suas paisagens (físicas e emocionais) absolutamente desoladoras, uma impecável direção de atores e planos que são verdadeiros triunfos cinematográficos, “Danação” é o primeiro trabalho de Tárr baseado no romancista (e, a partir disso, amigo) Lászlo Krashnahorkai, e conta com a colaboração do compositor Mihaly Vig (parceiro nos outros trabalhos) e da montadora e esposa Agnés Hranitzky. Num preto & branco suntuoso, o filme lembra as “matérias pesadas” de um Tarkóvski – na atmosfera densa e nos planos lentíssimos. Mas a “metafísica” de Bela Tárr talvez esteja mesmo mais próximo de um Fassbinder, no seu ímpeto de denunciar a desintegração do homem face ao seu entorno. E na Hungria, em 1988, ainda sob a égide do socialismo soviético, convenhamos: as coisas não eram nada fáceis. Um grande filme enervante, hipnótico, e, por vezes, surpreendente surrealista. No discurso do personagem principal parece não haver mais qualquer tipo de esperança para a humanidade. Talvez ele tenha mesmo razão. Inédito comercialmente no Brasil.
(Paulo Campagnolo – Coordenador do Projeto Um Outro Olhar)