26/07/2014 (SAB)
20h00
Projeto UM OUTRO OLHAR: “CÉLINE”.
Classificação 18 anos.
Entrada Franca.
“CÉLINE” - França/1992 – 88min. Direção: Jean-Claude Brisseau. Elenco: Isabelle Pasco, Lisa Heredia, Danièle Lebrun e Daniel Tarrare.
Vamos e convenhamos: a França, que já foi o “palco” para a revelação de grandes diretores do cinema hoje vive, se pensarmos bem, quase que só de seu passado fulgurante.
Não tanto como a Itália, onde as coisas não vão muito bem há pelo menos três décadas, mas o negócio por lá (na França) está mesmo no ritmo de “negócio”.
São poucos os diretores que, em conluio com a sinceridade artística, podem se destacar. Lembremos, no entanto, de Nicolas Klotz (do poderoso “A Questão Humana”), de Bertrand Bonello (“l’Apollonide”), o “enfant terrible” Leos Carax (de belezas como “Sangue Ruim” e o recente e fulminante “Holy Motors”), de Alain Guiraudie (do polêmico e surpreendente “Um Estranho no Lago”), Agnès Varda que, mesmo sendo da velha guarda, é capaz de maravilhas como “As Praias de Agnès”, Olivier Assayas (vindo da crítica e diretor de “Depois de Maio”) e Bruno Dumont (dos fortíssimos “A Humanidade” e “Flandres”) – todos já exibidos pelo Projeto.
E, é claro, o nosso queridíssimo Lean-Luc Godard, que continua vivíssimo aos 83 anos, e que foi lindamente aplaudido em Cannes este ano pelo seu 3D “Adie au Langage”, além de alguns outros que agora a memória e a pressa não me deixam lembrar. Ah, sim! e Jean-Claude Brisseau. Dele, o Projeto exibiu no ano passado seu último trabalho, “A Garota de Lugar Nenhum” – certamente, um dos grandes filmes de 2013.
Agora vamos ver “Céline”, que muitos consideram sua obra-prima. É um desses trabalhos que nos fazem sentir meio “bestas”, tamanha é a delicadeza, a fulguração de imagens “plenas” de cinema, a verdade que se desprende dessas imagens, a beleza conquistada através, e unicamente possível, de uma arte capaz de descongelar os corações mais empedernidos.
Céline é Isabelle Pasco (a bela de “Roselyne e os Leões”, de Jean Jacques Beineix, de 1989), uma garota cujo pai, um publicitário famoso, acaba de morrer em seus braços, não sem antes lhe revelar que ela não é sua filha. Para piorar, o noivo, com quem está prestes a se casar, depois de saber que ela não será a herdeira do império do pai, decide romper a relação. Prostrada diante do portão de uma escola, num dia de chuva, Céline é “salva” por Geneviève (Lisa Heredia), uma enfermeira que a leva para casa e cuida dela, inclusive salvando-a de uma tentativa de suicídio. Contratada, depois, pela mãe de Céline para cuidar da filha, Geneviève lhe ensina algumas “posturas” de yoga – que foi tão importante para ela em momentos difíceis.
A enfermeira, então, passa a viver na enorme casa de Céline e atende seus pacientes por lá, com a garota lhe ajudando. Aos poucos, Céline começa a demonstrar uma intensa predileção pelo silêncio e concentração, nos seus “exercícios” de yoga. E o que virá, depois... bem, melhor não revelar aqui. Mesmo porque é de uma beleza dessas que nem mesmo as palavras seriam capazes de traduzir. Brisseau, um digno “apóstolo” de Bresson e autor de obras polêmicas como “Coisas Secretas” (que o levou à cadeia) e “Anjos Exterminadores”, constrói seu filme com a “carne” mais saborosa do cinema: imagens estonteantes e um sentido de transcendência tão singular e inesperado, que o espectador ficará de queixo caído com a “tranquilidade” das fulgurações espirituais que “rondam” o filme de maneira indelével.
E o mais bonito, talvez, é que “Céline” não seja um filme sobre Céline, mas sim sobre Geneviève (a ótima Lisa Heredia, também conhecida como Maria Luisa Garcia – e que assina, neste filme, também a montagem). E se é sobre ela, então, quem sabe, será sobre nós. Um filme, este “Céline”, de encher os olhos. Inédito comercialmente no Brasil.
(Paulo Campagnolo – Coordenador do Projeto Um Outro Olhar)