18/10/2014 (SAB)
20h00
Projeto UM OUTRO OLHAR: “A Palavra” - Mostra de Teatro Contemporâneo – 4ª Edição.
Classificação 16 anos.
ENTRADA FRANCA.
Dinamarca/1955 – 125min. Direção: Carl Theodor Dreyer. Elenco: Henrik Malberg, Emil Hass Christensen, Preben Lerdorff Rye, Cay Kristiansen, Hanne Agesen, Kirsten Andreasen, Sylvia Eckhausen, Birgitte Federspiel, Ejner Federspiel e Gerda Nielsen
Rigor, austeridade e perfeccionismo são algumas das palavras que podem ser aplicadas ao cinema do dinamarquês Carl Theodor Dreyer (1889-1968). Diretor dos clássicos “O Martírio de Joanna D’Arc” (1928), “O Vampiro” (1930) e “Gertrud” (1964), entre outros, Dreyer teve uma carreira conturbada, com projetos que nunca vieram à tona e muita resistência por parte do público. Em 1955 lança “A Palavra” no Festival de Veneza e leva para casa O Leão de Ouro, principal prêmio, além da saudação de gente como André Bazin e François Truffaut. Baseado na peça do pastor e dramaturgo Kaj Munk (que foi assassinado pelos nazistas), o filme, em tom “naturalista”, narra o processo de crise de uma família de fazendeiros dinamarqueses, nos anos 20. O proprietário da fazenda, o patriarca Morten Borgen, já em idade avançada, líder luterano da paróquia do povoado, tem de lidar com dois problemas que tem a fé religiosa como objeto dessa crise: o filho Joahannes, que depois de passar um tempo num mosteiro e estudar Kierkegaard, retorna para casa acreditando ser Jesus Cristo, e o filho mais jovem, Anders, que está apaixonado pela filha de um alfaiate, líder de uma seita religiosa cristã local e que diverge das posturas de Morten. O filho mais velho, todavia, casado com Inger, que está grávida do terceiro filho, não compartilha da fé que para o pai é uma dívida para com Deus. Quando Inger dá a luz ao filho nati-morto e acaba morrendo no parto, um milagre se anuncia pelas palavras de Johannes.
Da magnífica direção de atores aos planos que estão entre os mais “cuidados” do cinema, da fotografia exuberante (talvez a mais bela da história) à aparente simplicidade (complexa e arrasadora) dos movimentos de câmera, “A Palavra”, mais do que cinema, é uma das experiências mais sublimes da arte do século 20. Dreyer, um “profeta cinematográfico” que influenciou nomes como Ingmar Bergman, Andrei Tarkóvski, Robert Bresson, Lars von Trier e Carlos Reygadas entre tantos outros, promove com “A Palavra” um encontro inusitado e epifânico entre fé, amor e cinema. Ou talvez pudesse ser colocado de outra forma: fé e amor pelo cinema.
O Grupo Teatro de Câmera, de Maringá, tem em “A Palavra” não propriamente uma referência para o seu trabalho, mas uma elevada “reverência” às posturas de Dreyer. Começando pelo título, pois que o mais importante para o Grupo é mesmo a palavra, e sinalizando para uma perspectiva de transcendência em relação ao material e ao ordinário da vida através de “pequenos milagres” – que, ousamos sonhar, possam acontecer através da luz, dos gestos, das posturas e, é claro, da própria palavra como ato.