26/03/2016 (SAB)
20h00
Entrada Gratuita
CONVITE AO CINEMA: "Lourdes".
Ciclo: "Posturas do Corpo – Deslocamentos e Fronteiras"
Filme: "LOURDES" (Lourdes) Áustria/França/Alemanha/2009 – 96min. Direção: Jessica Hausner. Elenco: Sylvie Testud, Léa Seydoux, Elina Löwensohn e Bruno Todeschini.
Classificação 16 anos.
Quando se fala sobre um "cinema religioso", inevitavelmente dois nomes são lembrados: o dinamarquês Carl Th. Dreyer (de "O Martírio de Joana D'Arc" e "A Palavra") e o francês Robert Bresson (de "Diário de Um Padre" e "A Grande Testemunha"). Dois emblemas da narrativa cinematográfica que, a despeito de seus pendores sobre a fé, transformaram-se em gênios criadores entre os maiores da história. E quando se fala de cineastas austríacos, os nomes de Michael Haneke e Ulrich Seidl surgem como dois dos mais radicais, capazes mesmo de nos fazer pensar que aquele povo, o austríaco, tem muitos problemas (e qual povo não teria?), com obras como "Funny Games" e "A Fita Branca", do primeiro, e "Dias de Cão" e a trilogia "Paraíso: Amor", "Paraíso: Fé" e "Paraíso: Esperança", do segundo. A estes, se junta a também austríaca (que foi assistente de Haneke) Jessica Hausner que, em 2009, no seu terceiro trabalho, realizou o polêmico (principalmente para a igreja católica) "Lourdes". Premiado em Veneza (pela Crítica Internacional e pelo Júri Ecumênico, ironicamente), o filme lança um olhar ardiloso, porém embalado numa sutileza extraordinária, sobre os desígnios da fé e a necessidade de uma "reparação", através da cura milagrosa, num mundo tomado pelas precariedades físicas (doenças, deficiências e... solidão). Estamos no santuário de Lourdes, na França. Ali Christine (a maravilhosa Sylvie Testud) chega em sua cadeira de rodas. Ela sofre de esclerose múltipla e basicamente só movimenta a cabeça, dependendo sempre da bondade alheia. O lugar é como um shopping center, com as vitrines das lojas oferecendo imagens de Nossa Senhora de Lourdes e outros "apetrechos" religiosos que, para quem tem fé, servem aos seus propósitos. Christine, no entanto, está ali muito mais movida pelo desejo de "sair um pouco de casa" do que propriamente por alguma crença inabalável. Amparada por membros da Cruz de Malta, Christine faz peregrinações, toma banho com a água milagrosa da gruta (em cena desmistificadora), interage com alguns membros do seu grupo – principalmente uma senhora que, ao que parece, está lá para "se livrar" de uma solidão intensa que a dominou durante grande parte de sua vida. Christine observa, conversa, atrai os olhares de um homem membro da equipe que ajuda os peregrinos e, então, de repente, alguma coisa acontece. Entre a angústia de uns, o desejo de cura de outros, alguns comentários ácidos, os protocolos rigorosos do santuário e as digressões sobre fé e milagres, a diretora tece um comentário exemplar sobre as misérias humanas, contrastando crença e consumo, milagres e prazeres seculares. Na sequência final, absolutamente brilhante, uma demonstração de que é preciso ficar de olho no trabalho de Jessica Hausner. O filme, naturalmente, não é indicado para os fundamentalistas de qualquer religião.
(Paulo Campagnolo – Coordenador do Convite ao Cinema).