02/04/2016 (SAB)
20h00
Entrada Gratuita
CONVITE AO CINEMA: "Bad Boy Bubby".
Filme: "BAD BOY BUBBY" (Bad Boy Bubby) Austrália/Itália/1993 – 100min. Direção: Rolf De Heer. Elenco: Nicholas Hope, Claire Benito e Carmel Johnson.
Classificação 18 anos.
O garoto foi criado pela mãe, dentro de um pequeno apartamento, sórdido, escuro e sujo. Quando o encontramos, ele já tem 35 anos. Não pode sair, porque segundo a mãe o mundo lá fora está envenenado por gases tóxicos que podem matá-lo. Para provar isso, toda a vez que vai para a rua, ela coloca uma máscara de gás. Aos 35, Bubby tem a mentalidade de uma criança. Brinca com seu gatinho e, também, com baratas. A mãe lhe dá de comer e lhe dá banho. Mas a mãe também faz sexo com ele chamando-o de "bom menino". Num belo dia, o pai aparece – o pai que ele não conhecera. A mãe e o pai discutem, bebem, se reconciliam. Bubby observa e de alguma forma percebe que sua vida vai mudar. Bubby mata o pai, a mãe e o gato. Bubby sai da casa. Bubby ganha o mundo. E o espectador ganha um dos mais interessantes (pra dizer o mínimo) personagens do cinema recente. Realizado há 23 anos pelo holandês, radicado na Austrália, Rolf de Heer, "Bad Boy Bubby" transformou-se num filme cultuado (inclusive por Tarantino e por Nick cave) pelo seu retrato impiedoso, com um recheio substancial de humor negro, das mazelas humanas – chafurdando, a um só tempo, no abuso infantil, no incesto, nos dogmas religiosos (é um dos mais fervorosos filmes anticlericais que faria Buñuel sorrir com satisfação), na aceitação das diferenças e na sociedade de consumo, construindo um retrato violento e, por vezes, repugnante, das relações entre os homens e o mundo. Com 32 diretores de fotografia, para captar as transformações decorrentes da "liberdade" de Bubby, o filme adquire enormes dimensões políticas a partir da observação do mundo através desse personagem "inocente" – sugerindo, de forma implacável, o quanto estamos "aprisionados" pelas normas sociais. Estranho, desconfortável (a sequência com os portadores de paralisia cerebral beira o insuportável), cruel e, muitas vezes, excitante, "Bad Boy Bubby" traz um desempenho magnífico de Nicholas Hope que faz de seu personagem uma espécie de "herói" num mundo onde não há mais lugar para a inocência. Premiado em Veneza/93 (Grande Prêmio do Júri e Prêmio da Crítica Internacional), é um filme, no mais, com uma atitude rara: como se fosse um soco no estômago das nossas precariedades.
(Paulo Campagnolo – Coordenador do Convite ao Cinema).