17/09/2016 (SAB)
20h00
Entrada Gratuita
CONVITE AO CINEMA: "A Religiosa Portuguesa".
Ciclo: ILUMINAÇÃOES – O FERVOR DA PALAVRA.
Filme: "A RELIGIOSA PORTUGUESA" - ("La Religieuse Portugaise") França/Portugal/2009 – 127min. Direção: Eugène Green. Elenco: Leonor Baldaque, Ana Moreira, Adrien Michaux, Diogo Dória e Beatriz Batarda.
Classificação 16 anos.
Com uma curta carreira, iniciada em 1999 com "Todas as Noites" (exibido em julho pelo Convite ao Cinema), mas já uma enorme admiração por parte da crítica e dos cinéfilos antenados com o que há de melhor na cinematografia mundial. Eugène Green, americano que adotou a França como pátria, é um artista da palavra, com uma fixação quase doentia pelo barroco. E assim sendo, não poderia deixar de ir a Portugal, um dos berços do barroco. Foi lá que realizou "A Religiosa Portuguesa", baseado em Gabriel de Guillerages, considerado até agora o seu grande filme. O resultado, antes de qualquer coisa, é de uma delicadeza quase petulante, elevada a uma potência poética insuspeita. E quanto mais insuspeita, mais irritável – penso ser assim as obras inteligentes que nos confrontam, que nos colocam diante da nossa palermice. No filme, Julie (a portuguesa Leonor Baldaque – de leveza angelical) é uma atriz francesa, de ascendência portuguesa, que se encontra pela primeira vez em Lisboa para as filmagens de "Cartas Portuguesas". Nos intervalos das filmagens (quando personagem se confunde com a atriz, e vice versa), Julie perambula pela cidade, conhece pessoas, indaga sobre um certo sentido da existência e, inadvertidamente, de forma inesperada e irremediavelmente religiosa (numa esfera poética), acaba se deparando com a possibilidade de transcendência. Green, como é de costume, faz seus atores falarem diretamente para a câmera, confrontando-nos. Isso, ao mesmo tempo em que pode nos incomodar, também pode fazer com que possamos assumir (de forma muito terna) uma cumplicidade com os personagens. É uma das belezas do cinema de Green: colocar-nos frente a frente com os dilemas de seus personagens. E eles, pra que saibam todos, são de uma delicadeza assustadora, quase que a nos dizer que nosso mundinho banal e ordinário pode, e deve, ser transmutado em direção a um elevado senso de humanidade e destreza verbal. A palavra, aqui, assume dimensões tão belas como se estivéssemos a ler um livro, desses que já não se escrevem mais. "A Religiosa Portuguesa" é um filme, no mais, apenas para quem esteja aberto á novas e inteligentes experiências de cinema. Elegantes e, acima de tudo, profundamente humanistas. É um filme contra as facilidades dedicadas aos imbecis. E desses, o mundo está repleto. Lamentavelmente.