08/07/2017 (SAB)
20h00
Entrada Gratuita
CONVITE AO CINEMA: “Esse Velho Sonho Que Se Move” e “Elephant”.
Ciclo: REPRESENTAÇÃO E RECEPÇÃO FÍLMICA – O DESMANTELAMENTO DO OLHAR
1º Filme: “Esse Velho Sonho Que Se Move”
País: França/2001 – 51min.
Direção: Alain Guiraudie
Elenco: Pierre Louis-Calixte, Jean-Marie Combelles, Jean Ségani e Laurent Lunetta
2º Filme: “Elephant”
País: Reino Unido/1989 – 39min.
Direção: Alan Clarke
Elenco: Gary Walker, Bill Hamilton, Michael Foyle, Danny Small e Robert Taylor
Realização: Secretaria de Cultura de Maringá
Apoio: Jornal O Diário, Maringá.Com e RPC
Classificação 16 anos
ENTRADA FRANCA
Alain Guiraudie é considerado um dos novos talentos do cinema francês, principalmente depois do sucesso (polêmico) do seu “Um Estranho no Lago” (de 2013), exibido e premiado em Cannes e eleito um dos grandes filmes daquele ano. No Brasil, o seu longa mais recente “Na Vertical” esta em cartaz, depois de ser exibido no Festival Varilux. Trata-se de um cineasta com muitas coisas a dizer, mas de uma maneira que deve calar aquele que vai procurar no cinema apenas uma história, talvez divertida, talvez repleta de ação. De 2001, “Esse Velho Sonho Que Se Move” foi apresentado em Cannes e teve de ninguém menos que Jean-Luc Godard o comentário de que se tratava do melhor filme do Festival daquele ano. Numa velha fábrica que está com os dias contados para o fechamento definitivo, chega um jovem técnico responsável pela desmontagem de uma máquina. Enquanto um gerente acompanha regularmente seu trabalho, outros funcionários transitam sem ter muito que fazer, esperando pelo fim de semana. Num langoroso movimento minimalista, Guiraudie pinta um retrato sem sentimentalismos da classe trabalhadora, do mundo neo-liberal e, inesperadamente, da sexualidade de seu personagem principal. Muito mais do que uma história a ser contada, o diretor tem uma capacidade delicadíssima de sugerir “estados” físicos (a velha fábrica, as ruínas, a vegetação em volta, os corpos dos personagens) que refletem as ambiguidades contemporâneas e as e distâncias entre um velho mundo e um novo que se inicia de forma drástica. Não faltará, no entanto (e quase de forma improvável), a sutil carícia com a qual Guiraudie faz seu filme transbordar – num olhar muito original e não destituído de certo humor.
Em “Elephant”, todavia, não há nenhum tipo de humor. Considerado um marco da TV britânica, o filme sofreu boicotes e ataques antes mesmo de ser exibido. Realizado em 1989, durante os tensos e trágicos episódios que marcavam a luta do IRA contra o governo inglês, o filme tornou-se um clássico – mas que continua desconhecido por muitos. E é fácil saber por quê. Sob o ponto de vista da máquina (a arma, o revólver), vamos acompanhar 18 assassinatos, em Belfast (Irlanda do Norte). O termo crueldade impõe-se. Mas há mais dúvidas sobre ele do que propriamente o alcance que “Elephant” tem. Um documentário? Não exclusivamente. Um filme para nocautear os sentidos. Com duas ou três palavras proferidas, durante seus 39 minutos, “Elephant” é basicamente um filme silencioso. Não fossem os ruídos de fundo e, naturalmente, os tiros. Nenhuma identidade, nem dos assassinos e muito menos dos assassinados. Nenhuma explicação. Nenhum discurso. Nada. A não ser a morte que, antes de acontecer, perambula em longos travellings e, depois, detém-se no corpo do morto por alguns (intermináveis) segundos. Radical nas suas escolhas narrativas, Alan Clarke fez um filme visceral e perturbador. Como bem disse um crítico: ”Elephant” é uma Lição não apenas de Método, como de recepção; ele é anti-anedótico, anti-novelesco e anti-pitoresco, estas três pragas de origem televisiva que infectaram o cinema de hoje. Em 2003 o diretor americano Gus van Sant lançou o seu “Elefante” e venceu a Palma de Ouro em Cannes e o Prêmio de Direção. O filme de Sant deve a Clarke não apenas o título, mas bem como o seu modus operandi. O título do drama de Clarke foi inspirado por uma citação do escritor Bernard MacLaverty, afirmando que os problemas para aqueles que viviam na Irlanda do Norte na época eram "tão fáceis de ignorar como um elefante na sua sala de estar". Sugerindo que, depois de um tempo, todos aprenderam a viver com ele. (Paulo Campagnolo é Coordenador e Curador do Convite ao Cinema)