21/10/2017 (SAB)
20h00
Entrada Gratuita
CONVITE AO CINEMA: "Nocturama".
Filme: "Nocturama" - França/Bélgica/Alemanha/2016 – 130min. Direção: Bertrand Bonello.
Elenco: Finnegan Oldfield, Vincent Rottiers, Hamza Meziani, Rabat Nait Oufella e Manal Issa.
Classificação 18 anos
ENTRADA FRANCA
Realizado antes dos ataques terroristas que abalaram a França (e o mundo), em 2015, "Nocturama" foi um dos mais polêmicos filmes lançados em 2016. Sua participação no Festival de Cannes foi vetada e boa parte da crítica hostilizou o filme. E fácil de entender, mas difícil de aceitar. Bonello (de filmes tão belos quanto fortes como "O Pornógrafo" e "L'Apollonide") realizou uma obra lancinante sobre jovens franceses, de diversas classes e etnias, que cometem atentados à bomba na capital francesa, sincronizados em diversos lugares e que, depois, refugiam-se num grande shopping center (que foi um dos cenários do "Holy Motors", de Leos Carax) para esperar a "poeira baixar". Não será simples. Com lampejos de "Elefante", tanto o do inglês Alan Clarke (89), quanto do americano Gus van Sant (2003), o filme não se propõe a explicar o que quer que seja – nem os motivos desses jovens e muito menos estabelecer um diálogo direto com a realidade do mundo. O resultado é um trabalho ao mesmo tempo impermeável e, ainda, absolutamente afeito às mais belas posturas cinematográficas (com uma montagem de tirar o fôlego, por exemplo), num exercício poderoso de controle da narrativa e sobre o tempo da ação. Todavia, talvez as duas palavras mais fortes que podem ajudar a solucionar o "enigma" que "Nocturama" lança sobre o espectador sejam: despersonalização e desconexão. Toda a segunda parte, que se passa no shopping, nos alerta sobre esse "estado de caos" não apenas da psique humana, mas sobre o império do consumo (e aqui, algumas cenas se tornam verdadeiramente emblemáticas). O que nos leva a esse "mesmo lugar de sempre": a alienação. De resto, duas questões contemporâneas imponderáveis são jogadas na nossa cara durante o filme. Numa delas, uma personagem pergunta a outra: "O que vem depois da decadência?". E a outra será da participação afetiva da atriz Adèle Haenel (de "Lírios D'Água", "L'Apollonide" e "A Garota Desconhecida"). Tarde da noite, após os ataques, um dos terroristas encontra essa garota, numa bicicleta. Depois de uma conversa sobre se encontraram os culpados, ela diz: "Isso ia acontecer, não?" E ele responde: "Honestamente, não sei." E ela arremata: "Tinha de acontecer. Tinha mesmo de acontecer. E aconteceu." E essas, no mínimo, são apenas duas "bombas" que o filme planta para nos fazer repensar o mundo e as nossas atitudes para com este mundo. Se assim não acontecer, melhor mudar de planeta. Bonello aqui, no mínimo, dá-nos uma cutucada com um infectado objeto pontiagudo. Com extrema ironia – o que não deverá ser agradável para quem se reconhecer com alguns dos "rebeldes".
(Paulo Campagnolo – Coordenador e Curador do Convite ao Cinema)