28/10/2017 (SAB)
20h00
Entrada Gratuita
CONVITE AO CINEMA: "Arrependimento".
Filme: "Arrependimento" - Geórgia (URSS)/1984/1987 – 153min. Direção: Tengiz Abuladze.
Elenco: Avtandil Makharadze, Ia Ninidze, Merab Ninidze, Keinab Botsvadze, Kakhi Kavsadze e Ketevan Abuladze.
Classificação 18 anos
ENTRADA FRANCA
De cara, vou dizendo: "Arrependimento" é uma obra-prima! O diretor georgiano Tengiz Abuladze criou, a um só tempo, o mais feroz dos filmes contra o stalinismo, além de um estudo de personagem dos mais inteligentes do cinema feito na ex-URSS, da qual a Geórgia fazia parte. Realizado em 84, mas vetado pelos censores socialistas, o filme acabou sendo lançado em 87 (já sob os auspícios da glasnost de Gorbachev), durante o Festival de Cannes – de onde levou três importantes prêmio: Grande Prêmio do Júri, Prêmio da Crítica Internacional e o Prêmio do Júri Ecumênico. Entre a alegoria e a farsa grotesca, o filme põe o pé na realidade histórica ao retratar Varlan (Avtandil Makharadze, simplesmente magnífico) que, com seu bigodinho a lá Hitler, transforma-se num ditador totalitário de uma cidade. Quando o filme começa, sabemos que Varlan morreu. Mas, curiosamente, o seu corpo, mesmo depois de enterrado, aparece em lugares estranhos. Ficaremos sabendo sobre isso aos poucos. E de forma absurdamente eletrizante. Marco cultural e político da Geórgia, "Arrependimento" ampara-se, de forma inconteste, nas figuras não apenas de Stalin (georgiano de nascimento), mas bem como de Mussolini e também de Lavrentiy Pavlovich Beria (também nascido na Geórgia), o braço direito de Stalin e um dos responsáveis pelo Expurgo ocorrido na década de 30 – além de ter comandado o Massacre de Katyn, em 1940, quando mais de 22 mil poloneses, entre oficiais, cidadãos comuns e intelectuais foram sistematicamente assassinados. Abuladze, que baseou o seu filme, em histórias reais de figuras políticas e culturais que foram assassinadas por Stalin, faz não apenas um filme importante do ponto de vista estético, mas do ponto de vista político. Deixa claro o quanto parece ser comum que os herdeiros de um ditador tentam esconder seus crimes e acabam por viver os frutos do espólio promovido por eles. Os casos são inúmeros, evidentemente. Passados 30 anos, "Arrependimento" pode nos ensinar muito sobre o mundo de agora.
(Paulo Campagnolo – Coordenador e Curador do Convite ao Cinema)