29/09/2018 (SAB)
20h00
Entrada Gratuita
Filme: "DIAS DE IRA". Dinamarca/1943 – 97 minutos. Direção: Carl Th. Dreyer. Elenco: Lisbeth Movin, Thorkild Roose, Preben Lerdorff Rye e Sigrid Neiiendan.
Realização: Secretaria de Cultura de Maringá
Apoio: Maringá.Com
Classificação 16 anos
ENTRADA FRANCA
De Bergman a Tarkóvski, de Claire Denis a Lars von Trier, e tantos outros, a dívida do cinema para com o gênio do dinamarquês Carl T. Dreyer (1889-1968) é incontestável e inabalável. Godard o homenageou em "Viver a Vida", quando Nana (personagem de Anna Karina) se derrama em lágrimas ao assistir num cinema a um trecho (o que restava na época) do sublime "A Paixão de Joana D'Arc" (de 1928). Antonioni, o mestre da incomunicabilidade jamais deixou de reverenciá-lo. E apesar de 65 anos dedicados ao cinema, Dreyer assinou apenas 14 obras – mas algumas delas estão entre as maiores realizações da história do cinema. Se "A Paixão de Joana D'Arc" marcava o fim da era muda, não deixava de ser uma espécie de inventário do que se seguiria, com a beleza drástica e abstrata de "O Vampiro" (1933), o descomunal "A Palavra" (vencedor do Festival de Veneza, em 1955) e seu último e magnífico trabalho, "Gertrud" (de 64). Entre eles, em 1943, Dreyer fez aquele que é considerado por muitos como o maior filme dinamarquês da história: "Dias de Ira", que será exibido neste sábado, pelo Convite ao Cinema. No século 17, uma jovem é obrigada a se casar com um homem mais velho depois que sua falecida mãe é acusada de feitiçaria. O marido, no entanto, tem um filho, que retorna à casa paterna. E os dois se apaixonam. Realizado em plena ocupação alemã na Dinamarca, "Dias de Ira" é um dos mais avassaladores filmes anti-totalitário da história do cinema. Não bastando isso, Dreyer, com um absoluto domínio do espaço e esplêndidas composições de luz e sombras, inspira-se na pintura da Escola Holandesa (com um Rembrandt triunfando em planos de deixar nossos olhos estupefatos) dando ao filme esse "lugar" cada vez mais raro da união entre a beleza formal e a profundidade temática. Rigoroso e austero, promove a ação de cada plano através do retrato de uma mulher (no trabalho implacável de Lisbeth Movin) que se verá atada à covardia dos homens. Se na sua estrutura, estamos numa idade de trevas com o caça às bruxas – cujos métodos de tortura fazem frente aos utilizados pelos nazistas – e a intolerância religiosa, Dreyer lança um olhar anarquista sobre a paixão entre os dois personagens que funciona como uma espécie de grito frenético contra toda e qualquer autoridade. E encontra, assim, a perfeição. Mas ainda penso que é muito mais do que isso.
(Paulo Campagnolo – Coordenador e Curador do Convite ao Cinema)