06/10/2018 (SAB)
20h00
Entrada Gratuita
Projeto apresenta o Ciclo: ILUMINAÇÕES, com a exibição do filme A Dócil.
País: Ucrânia/França/Alemanha/Rússia/Letônia/Lituânia/Holanda/2017 – 143min. Direção: Sergei Loznitsa. Elenco: Vasilina Makovtseva, Valeriu Andriutã, Sergei Kolesov, Dimitry Bykovsky e Liya Akhedzhakova.
Realização: SECRETARIA DE CULTURA DE MARINGÁ
Apoio: Maringá.Com
Classificação 18 anos
ENTRADA FRANCA
No seu terceiro filme de ficção, o ucraniano Sergei Loznitsa (também autor de documentários belíssimos e incisivos sobre a história contemporânea) reflete a Rússia contemporânea através da história de uma mulher que, depois de receber de volta a encomenda que enviou ao marido preso, recebe viajar para entregar pessoalmente a caixa contendo roupas e comida. Jogada, como apenas mais uma das inúmeras mulheres e homens que buscam notícias de parentes presos, numa espécie de espiral predatória onde convivem proxenetas, prostitutas, funcionários públicos pouco afeitos às gentilezas, burocracia e toda espécie de corrupção que parece bloquear qualquer tentativa de fuga. A mulher (Vasilina Makovtseva em trabalho vigoroso e muito difícil), à mercê do mal e de todas as contradições inequívocas que a bondade pode encontrar diante de uma estado de coisas onde a única suavidade talvez provenha do título do filme, viverá um périplo que, mais ainda do que reflexo de um país culturalmente espoliado e politicamente reacionário, é uma verdadeira descida até a escuridão. Iluminado de forma belíssima pelo romeno Oleg Mutu (que foi o diretor de fotografia dos filmes anteriores de Lloznitsa, "Minha Felicidade" e "Na Neblina", além de "4 Meses, 3 Semanaos e 2 Dias" e "Além das Montanhas", de Cristian Mungiu), o filme, no entanto, detém em cada quadro uma violência e desconforto que o fazem difícil de ser esquecido. Se o título, "A Dócil" remete imediatamente à novela de Dostoiévski, Loznitsa utiliza-se do mesmo como uma metáfora contemporânea sobre adentrar por regiões pantanosas quase que como uma espécie de suicídio. E se, ao ser exibido em Cannes no ano passado, o filme recebeu uma saraivada de vaias por uma parte da crítica que não ficou satisfeita com o desfecho da história, resta dizer que ao absurdo Loznitsa respondeu com absurdo. Não deixa de ser, portanto, pertinente que o quadro realista, por vezes, por força de contingências tão exasperantes, alcance o lugar da mais estranha e perversa ironia. Para usar uma palavra, no mínimo, irônica.
Paulo Campagnolo – Coordenador e Curador do Convite ao Cinema