27/10/2018 (SAB)
20h00
Entrada Gratuita
Projeto Convite ao Cinema exibe filme A Ascensão, que integra o ciclo Iluminações.
País: ex-União Soviética/1977 – 111min. Direção: Larisa Shepitko. Elenco: Boris Plotnikov, Vladimir Gostyukhin, Sergei Yakovlev, Lyudmila Polyakova e Anatoli Solonitsyn.
Realização: SECRETARIA DE CULTURA DE MARINGÁ
Apoio: Maringá.Com
Classificação 16 anos
ENTRADA FRANCA
NO CORAÇÃO DA BARBÁRIE:
Não haverá descanso para o espectador do Convite ao Cinema neste sábado. "A Ascensão", da diretora ucraniana Larisa Shepitko (1938-1979), desde o princípio, até o seu final devastador, é uma saga brutal, comovente e inesquecível sobre o lugar da redenção espiritual do homem em tempos de barbárie. Lançado em 1977 no Festival de Cinema de Berlim, de onde saiu com o prêmio principal, o Urso de Ouro, "A Ascensão" é uma obra cuja potência avançou sobre o tempo, alcançando um lugar destacado na cinematografia "soviética" de sempre.
Baseado no livro "Sotnikov", de Vassil Bikov, que provocou polêmica quando do seu lançamento, o filme de Larisa foi tão controverso quanto ao clarificar uma postura bastante liberal e a predileção por explorar os aspectos espirituais do filme, em detrimento do realismo absoluto que pregava a então cartilha socialista.
A história, ou antes, o episódio que o filme nos conta, revela, na sua essência e na sua ambição estética, toda a integridade dessa diretora injustamente esquecida, mas que o filme nos devolve intacta e com enorme urgência. Estamos em algum lugar na Bielorússia (hoje Belarus), durante a Segunda Grande Guerra. Um regimento russo está acuado, junto com civis, em meio a uma paisagem desoladora, coberta pela neve. Diante da exaustão e da fome, dois soldados Sotnikov (Boris Plotnikov, na sua estreia no cinema, em desempenho magnífico) e Rybak (Vladimir Gostyukhin) são destacados para procurar comida pelas aldeias vizinhas. Avançam, sem muita esperança, diante do frio e da iminência do encontro com soldados alemães. Sotnikov acaba ferido na perna e eles tentam se esconder na casa de uma mulher com seus três filhos pequenos, mas acabarão por serem capturados. A partir disso, o filme toma outro rumo: será menos a guerra e mais as posturas individuais que Shepitko se interessa em mostrar (e denunciar).
O que vem em seguida – a prisão dos soldados junto com a mãe (cujos filhos ficaram à sorte) e também um ancião que, para sobreviver, denunciava fugitivos aos alemães, além de uma menina; o interrogatório com o traidor Portnov (um assustador Anatoly Solonitsyn, dos filmes de Tarkóvski) que remete às páginas mais contundentes do "Crime e Castigo" de Dostoiévski; a "iluminação" de Sotnikov e o consequente desfecho, em sequência que nos leva, a uma só tempo, às trevas do coração humano e ao abrasador sentido da elevação espiritual – são coisas que talvez não possam ser descritas com palavras, tão profunda e emocionalmente poderosa é a descrição de Shepitko das nuances da desumanidade, do medo e do encontro com o sagrado. Sotnikov, em verdadeira via crucis, será o cordeiro imolado para manter, a despeito do horror, uma chama de fé na humanidade e seus desígnios.
O que fica é um poderoso libelo contra a corrupção. Uma experiência cuja violência, longe do grafismo obsceno e espetacular muitas vezes empregado pelo cinema de gênero, toma conta não dos nossos olhos, mas do coração – levando-nos a pensar se a essência humana não seria essa: a de ultrajar, de condenar o outro ao abismo, de insuflar a soberba, a mentira, a traição e o ódio. No derradeiro instante, entre a febre exaltada e a fria sombra da morte, Sotnikov escolherá a integridade. A mesma escolha que faz Shepitko, em sua obra derradeira, e que nos leva para um lugar de onde será impossível, parece-me, sair ileso. Para terminar, "A Ascesão" é um filme que não se esquiva de se posicionar contra as "deformidades" alarmantes de nossa tão suscetível raça. Essas mesmas "deformidades" que hoje, no Brasil, colocam em risco nossa tão frágil democracia através de um processo eleitoral, no mínimo, moralmente comprometedor. Para o azar de todos, absolutamente todos.
Paulo Campagnolo – Coordenador e Curador do Convite ao Cinema