08/02/2020 (SAB)
20h00
Gratuito
A fábula de ficção científica (sem efeitos especiais) de Godard nunca esteve tão perto de nós como agora, passados 55 anos da sua realização. Num mundo onde a palavra consciência não encontra sentido, onde o amor foi proibido e a bíblia é um dicionário onde palavras novas substituem aquelas que foram banidas por serem malditas, o agente secreto Lemmy Caution (o expatriado ator americano Eddie Constantine) tem como missão encontrar e assassinar o agente desertor, Professor von Braun (ex-Leonard Nosferatu), o arquiteto de um mundo novo e totalitário, guiado pela lógica e pela ciência (que aniquilou as emoções), através do Computador Alpha 60, o regulamentador da vida em Alphaville, supremo Big Brother.
Filmado em Paris, reconfigurada esteticamente através das lentes da câmera de Raoul Coutard, com grande imaginação e um enorme senso de humor, o filme traz Anna Karina (falecida em dezembro passado) que acabara de se separar de Godard, e cujos closes a divinizam – mostrando que Godard ainda a amava, certamente. No papel de Natasha von Braum, filha do professor, ela vai se tornar objeto de afeição de Caution e, com ele, aprender o sentido da palavra amor.
Na esteira do "1984" de George Orwell e emulando o cinema americano clássico, além das típicas citações e referências que se tornaram marca registrada, Godard filma um mundo onde as pessoas se tornaram escravas das probabilidades e são condenadas por agir de forma ilógica. Como, por exemplo, um homem que é condenado à morte por ter chorado depois que sua esposa faleceu. Numa sequência que faz o deleite das elites, os condenados são levados a um clube e, diante de uma piscina, são metralhados. Nadadoras profissionais se lançam para recuperar o corpo e desferem os últimos golpes. A facadas.
"Alphaville", animado por um senso de tempo e lugar, entre raiva e ansiedade, humor e ternura, não deixa nunca de surpreender. Obra-prima de um artista que continua remando contra as convenções, contra o conservadorismo e contra o fascismo destes tempos onde a palavra lucidez foi banida.
França/Itália/1965 – 99min.
Direção: Jean-Luc Godard
Elenco: Eddie Constantine, Anna Karina, Akim Tamiroff, Jean-Louis Comolli e Howard Vernon
Classificação: 16 anos
Realização: Secretaria De Cultura de Maringá
Apoio: Maringá.Com
Coordenação e Curadoria: Paulo Campagnolo