01/10/2021 (SEX) até 02/10/2021 (SAB)
20h00
Gratuito
16 anos
Secretaria de Cultura
Confira uma resenha do filme Tangerinas:
"CORAÇÕES AMEAÇADOS" por Paulo Campagnolo
"Suspeito que atrás de todas as aparências, há uma essência em luta. Quero unir-me a ela". As palavras do grande poeta grego Kikos Kazantzákis (1883-1957) talvez pudessem servir de epígrafe para o belo "Tangerinas", cartaz do Convite ao Cinema nesta sexta – com debate online no sábado. Dirigido pelo estoniano Zaza Urushadze (1965-2019), o filme se passa durante a guerra da Abkházia, em 1992. Porém, contrariando as convenções do gênero, a luta pela sobrevivência enfrentará menos o campo de batalha do que os dilemas morais e individuais.
O conflito, que deixou milhares de mortos, deu-se numa região que ansiava a separação da Geórgia, ex-república soviética, logo após a sua independência. Numa vila rural encontram-se Ivo e Margus, estonianos étnicos que ainda permanecem no local porque pretendem fazer a colheita das tangerinas. Enquanto Ivo fabrica caixotes, Margus tenta se apressar na colheita antes que a guerra chegue mais perto.
Um dia, aparecem dois mercenários chechenos pedindo comida. Logo depois, estes mesmos chechenos terão um confronto com georgianos e apenas um de cada lado sobrevive. Ivo instala-os em sua casa e com a ajuda de Margus (e um médico local), cuida de seus ferimentos. Ahmed, o checheno sobrevivente, no entanto, quando fica sabendo que no outro quarto está um voluntário georgiano, promete matá-lo, assim que puder. Quando Nika, o georgiano, se recupera (de um ferimento na cabeça), também se dispõe ao confronto com o outro. Ivo, entretanto, pede para que nenhum tipo de violência aconteça sob seu teto.
Os dois arrefecem, mas a tensão de dias seguidos convivendo no espaço restrito da casa aumenta cada vez mais. Será na forma de "conta gotas" que, através do cuidado e da dedicação de Ivo (um homem sábio que não prescinde do humor), os dois inimigos começarão a reconhecer a humanidade de cada um. Se dentro da casa de Ivo as tensões são manipuladas por uma câmera atenta aos menores gestos (com Urushadze mantendo o controle de cena e de espaço-tempo de forma impecável), lá fora, no entanto, a sempre iminente possibilidade da guerra acercar-se do local funciona como um eco de ameaça. Um reflexo de que talvez o coração dos homens não se permita resgatar uma humanidade perdida, face ao implacável realismo da morte.
Com uma penca de prêmios e nomeações importantes (ao Globo de Ouro e Oscar de Melhor Filme Estrangeiro), "Tangerinas" é delicado e comovente ao apostar na força de um estranho rito de passagem: o da estupidez para o afeto. A conduta de seus personagens nos dá a ideia de uma experiência que não deveria, evidentemente, pertencer apenas a um filme.
Com a bela fotografia de Rein Kotov, o destaque absoluto vai para o ator estoniano Lembit Ulfsak (1947-2017), como Ivo: ele tem um desempenho luminoso em "Tangerines". Ele é o coração deste filme onde as aparências irão lutar em busca de uma essência que as guerras, ou qualquer outro conflito entre os homens, fazem questão de jogar no pântano das nossas precariedades. Para encher de vergonha os cínicos de plantão.